Diga-me com quem andas que te direi quem és

Neste artigo o autor Ricardo Campo, do hub de inovação Pulse Hub, reforça a relevância da rastreabilidade como ferramenta para capacitar consumidores a entender o histórico de produção



A agricultura está vivendo uma nova revolução, na qual a ciência dos dados e o mundo digital aceleram a eficiência no campo com aumento da produtividade e redução da utilização dos recursos naturais. Além de resultados agronômicos, as novas tecnologias permitem também uma produção mais sustentável e alinhada com os anseios da sociedade. Isso porque a adoção de novas tecnologias é um caminho que vem se intensificando para minimizar perdas, reduzir resíduos derivados da atividade e aumentar a produtividade de forma ambiental, social e economicamente viável.


A rastreabilidade é um tema atual e relevante, já que o novo cenário da agricultura 4.0 capacita consumidores com informações sobre histórico de alimentos e segurança no ponto de compra, auxiliando na melhor tomada de decisão. Além disso, o mercado digital agrícola integrará sistemas em toda a cadeia de suprimentos, permitindo um melhor compartilhamento de informações entre agroindústria, distribuidores, varejistas e consumidores.


Nesse contexto, para atender às demandas dos consumidores e integrar agentes, a rastreabilidade se destaca como um elemento chave que une a agropecuária à tecnologia da informação. Com o uso de diferentes recursos, a rastreabilidade envolve a capacidade de rastrear um produto e seu histórico ao longo de toda ou parte de uma cadeia de produção, desde a colheita até o transporte, armazenamento, processamento, distribuição e vendas. E logo mais, com interações via internet das coisas (IOTs), a rastreabilidade chegará ao ponto de indicar padrões de consumo com dados obtidos de dentro das residências.


A rastreabilidade, que em alguns países já é prática obrigatória para determinados produtos agropecuários em função da sanidade e da garantia da origem, também pode gerar ganhos ao negócio com planejamento da distribuição, redução de desperdícios e adição de valor na entrega aos consumidores, seja pela qualidade e maior frescor dos alimentos, pelo preço justo a se pagar no varejo, seja pela transparência na cadeia produtiva.


Produtores com suas lavouras, startups com invenções. Cada um com seus desafios, mas ambos empreendedores engajados em produzir mais e melhores alimentos. E a rastreabilidade permitindo que isso seja transmitido para a ponta, para quem vai comprar ou consumir. Tecnologia gerando transparência e valor para um setor que ainda tem muito espaço para consolidar inovações. Mas será que o consumidor consegue perceber tudo isso? Será que enxerga valor nos produtos que já são rastreados?


Por onde andei e os rastros que deixei


Na cadeia produtiva de alimentos, é possível olhar de forma mais específica para a rastreabilidade na definição do Codex Alimentarius da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) como sendo a capacidade de seguir o movimento de um alimento através dos estágios específicos de produção, processamento e distribuição.


A rastreabilidade representa, ainda, a capacidade de identificar a fazenda onde um alimento foi produzido/cultivado e com quais fontes de insumos. A partir do momento em que os produtos agropecuários saem das propriedades onde foram originados e seguem adiante pelo fluxo do sistema agroindustrial, pode haver adição de valor na transformação a que são submetidos, mas também pela forma como passam a ser rastreados.


Nesse ponto, a rastreabilidade e outras tecnologias podem gerar valor com informação, determinando de onde um produto veio e por onde passou até chegar às mãos do consumidor. E já é possível identificar no mercado brasileiro casos que mostram como isso se materializa, como nos exemplos da Federação dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro e nos projetos do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) com pecuaristas, processadores e varejistas.


As tecnologias da informação e da comunicação (TIC) permitem que consumidores conheçam melhor o que consomem, acompanhem a reputação das marcas, avaliem empresas concorrentes, tenham mais informações sobre características, qualidade e relação custo/benefício dos produtos e serviços à sua disposição. Com a crescente demanda por rastreabilidade, vem a reboque um pacote tecnológico que passa desde sistemas de gerenciamentos de armazéns, códigos de barras, QR codes, etiquetas inteligentes ou por radiofrequência (RFID), chegando a soluções mobile como apps para celulares e embalagens interativas.


Por conceito, todas essas inovações podem até ser de difícil compreensão por parte dos consumidores, mas tecnologias como o blockchain possibilitam a rastreabilidade de ponta a ponta, estabelecendo uma linguagem tecnológica segura e padronizada para a cadeia alimentar, ao mesmo tempo que permite que os consumidores acessem a história e trajetória dos alimentos em seus rótulos por meio de seus smartphones.


A rastreabilidade envolve um complexo fluxo de dados, no entanto, alguns exemplos de mercado já começam a mostrar como é possível entregar produtos com mais transparência e rapidez no acesso à informação. Como no caso da BRF, em parceria com a rede varejista Carrefour e a big tech IBM, que desenvolveu projeto para utilização de blockchain para embalagens inteligentes para produtos de origem suína.


Block party!


O blockchain está impulsionando mudanças de processos na cadeia produtiva para facilitar o acesso à informação sobre a produção dos alimentos assim como a sua origem, da fazenda à mesa, em segundos, a fim de evitar a falsificação e ajudar a cadeia produtiva a atender os clientes nas exigências de informação com transparência.


Uma realidade que antes poderia parecer distante dos consumidores, mas que já se concretiza em soluções como as desenvolvidas pelas startups brasileiras Ecotrace, com soluções para rastreio da cadeia da carne, e pela Arabyka, startup que firmou parceria para o desenvolvimento de app com a Syngenta para rastreabilidade e origem na cafeicultura. Além da natureza transacional com o uso do blockchain, ainda há muita oportunidade para uso da rastreabilidade e geração de valor por agentes do pós-porteira.


Nicho que já vem sendo ocupado pela startup Safetrace, que possui patente para o Método de Rastreabilidade de Cortes Cárneos, e da empresa de base tecnológica PariPassu (Genesis Group), uma das parceiras do programa Rama da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) para monitoramento e rastreamento do nível de defensivos químicos na categoria de hortifrútis.


Toda nova tecnologia demanda tempo e adoção em massa para que possa gerar escala e compartilhar o seu valor ao mercado como um todo. Além dos esforços de produtores, startups e varejistas, uma iniciativa de big players também tem ajudado a puxar esse movimento do blockchain: a Covantis.


Esforço cooperado entre tradings agrícolas – ADM, Bunge, Cargill, Cofco, LDC e Viterra/Glencore –, essa plataforma integrada tem como objetivo minimizar riscos operacionais, modernizar e aumentar a eficiência para todos os elos da cadeia de venda e transporte de commodities. Curiosamente, e felizmente, o Brasil foi escolhido como país para iniciar projeto-piloto em grãos e oleaginosas em fevereiro de 2021. Apesar de representar o interesse das tradings, já é um grande passo para rastreabilidade, tech driven, para todo o setor.


Informação na origem de tudo


Depois de ter lido aproximadamente umas mil palavras desse artigo (dado aproximado que o editor de textos arredondou), imagine se você tivesse interesse ou necessidade em descobrir a fundo a origem desse conteúdo ou até mesmo chegar até mim, como autor destas linhas, para uma troca saudável de ideias ou argumentação contrária? Isso seria relativamente fácil e já deixo aqui o convite para uma conexão e boa prosa via redes sociais.


E mesmo que isso só seja fruto da minha criatividade para manter a sua leitura, felizmente com o meu texto não corro o risco de impactar a sua saúde ou a segurança de sua comunidade. Mas, no caso de produtos do agro, pode não ser bem assim. O impacto de uma crise associada a contaminações de alimentos, ou práticas inadequadas de produção, pode ser bem maior do que apenas perdas financeiras e gerar danos irreparáveis à reputação de uma empresa e a marcas rurais.


Boas práticas agrícolas e foco em produção sustentável deveriam ser um direcionador para todo o mercado. Mas, para aqueles que fizerem isso de fato, a rastreabilidade é ferramenta para transmitir isso como uma informação transparente e acessível, com uso de tecnologia para geração de valor.


Quem tem informação tem poder. E, na balança do mercado, consumidores têm poder e estão em busca de mais informação. Se produtor, startup, trader ou processador, no fim da linha somos todos consumidores e a rastreabilidade está aí para gerar benefícios aos nossos interesses de vida ou de negócios.



* O autor, Ricardo Campo, é coordenador de inovação da Raízen e gestor do Pulse Hub.


Fonte: Revista Plant Project


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